quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS PARALÍMPICOS | PARACICLISMO


Nestes dias ocorrem no Rio os Jogos Paralímpicos de 2016. Os Jogos Paralímpicos trazem para nós sentimentos mistos. Sentimentos de emoção e admiração por atletas que superam dificuldades as quais muitos de nós não imaginam ser possíveis de suportar, e sentimentos de indignação, como no caso de atletas que têm suas histórias de superação reveladas tendo como plano de fundo um acidente automobilístico, um atropelamento. Mas uma coisa que a vida nos ensina é que devemos valorizar a coisas boas, e as coisas ruins devem ser deixadas de lado. Devemos celebrar o que é bom. Um dos esportes mais emocionantes nos jogos paralímpicos é o ciclismo. Quanta força, quanta potência, e quanto controle de movimentos esses atletas mostram. Inicialmente apenas atletas com deficiência visual participavam do ciclismo paralímpico. Em 1984, atletas com paralisia cerebral e amputados foram incluídos e em 1988 o ciclismo paralímpico de estrada foi incluído no programa oficial, embora a classificação em categorias tenha sido estabelecida apenas em 1996. Provas no velódromo foram incluídas em 2000, assim como handcycling, ou ciclismo para cadeirantes. O ciclismo paralímpico exigiu algumas adaptações nas regras da UCI, com o uso de triciclos, bicicletas para duas pessoas e o uso das mãos para a propulsão da bicicleta. A produção científica no ciclismo paralímpico é insipiente. No medline, a busca por esses temas revela apenas 8 estudos, o que é ampliado se usarmos termos como handcycling e outros. Os estudos, até pouco tempo atrás, tinham um foco muito forte em desenvolver tecnologias que permitissem aos atletas a prática. Com o avanço tecnológico muito relacionado com esses estudos, hoje temos mais e mais grupos investigando aspectos de desempenho e treinamento desses atletas. Nestes jogos, o ciclismo paralímpico tem atletas com idade desde 18 até 58 anos. A maioria dos atletas é do sexo masculino, e a faixa etária com o maior número de atletas é a dos 30 aos 40 anos, seguido da faixa com atletas de 40 anos de idade ou mais. O Brasil está representado no paraciclismo de estrada por três atletas: Jady Malavazzi, Lauro Chaman e Soelito Gohr. Jady compete desde 2011 (tem 20 anos), e foi um acidente de carro que aos 12 anos mudou toda a sua vida fazendo com que elas perdesse os movimentos das pernas. Lauro Chaman, que tem uma deficiência na perna esquerda, produz cerca de 30% de força a menos naquela perna, o que não impede ele de competir em grandes provas e obter grandes resultados. Soelito sofreu um acidente enquanto treinava e ficou com limitações nos movimentos do braço esquerdo e por isso compete em uma bicicleta adaptada. Alguns destes também competirão nos eventos de pista (velódromo), onde temos outros representantes em outras categorias. Vamos ficar na torcida para que nossos atletas consigam atingir na Rio2016 os excelentes resultados que vêm alcançando nas competições nacionais e internacionais que participam!

Prof. Dr. Felipe Carpes
Professor Universidade Federal do Pampa
Presidente da Sociedade Brasileira de Biomecânica



segunda-feira, 12 de setembro de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS PARALÍMPICOS | ATLETISMO PARALÍMPICO




No dia 08 de setembro iniciam as provas da modalidade que mais obteve medalhas em Jogos Paralímpicos, o Atletismo. Ao total nossos atletas conquistaram 109 medalhas (32 ouros, 47 pratas e 30 bronzes), e neste ano 61 atletas farão parte da delegação. Nesta edição dos jogos a expectativa do Comitê Paralímpico Brasileiro é a conquista de 11 a 14 medalhas de ouro, o que poderia colocar o Brasil na 5a colocação geral no quadro de medalhas. A participação dos atletas se dá em provas de campo (Field), que envolvem as provas de arremessos, lançamentos e saltos e de Pista (Track) com as provas de velocidade e fundo.
Os atletas são divididos em classes de acordo com a deficiência. As classes para as provas de pista são: F11 a F13 (pessoa com deficiência visual), F20 (pessoas com deficiência intelectual), F31 a F38 (pessoas com paralisia cerebral, sendo de 31 a 34 para cadeirantes e de 35 a 38 para ambulantes), F40 (anões), F41 a F46 (amputados e outros), F51 a F58 (cadeirantes com sequelas de poliomielite, lesões medulares e amputações). Já as provas de pista possuem as seguintes classificações: T11 a T13 (pessoa com deficiência visual), T20 (essoas com deficiência intelectual), T31 a T38 (pessoas com paralisia cerebral, sendo de 31 a 34 para cadeirantes e do 35 a 38 para ambulantes), T41 a T46 (amputados e outros (les autres) e T51 a T54 (cadeirantes com sequelas de poliomielite, lesões medulares e amputações).
Será muito comum observar os atletas utilizando próteses e cadeiras de rodas durante as competições. A evolução desses equipamentos é constante e a biomecânica em muito tem colaborado para isso. Enquanto o desenvolvimento de materiais leves reduzem o custo energético da locomoção, a criação de próteses flexíveis, como as J-shaped facilitam o aproveitamento da energia elástica. Talvez o grande desafio da aplicação da biomecânica do atletismo paralímpico esteja na adequação dos conhecimentos gerados a partir de atletas sem deficiências, associados a soluções de problemas práticos e específicos de cada atleta.
Ao contrário do atletismo olímpico, no paralímpico temos muitos favoritos a medalha de ouro. Eu destacaria no masculino o atleta Lucas Prado (T11), especialista em provas de 100, 200 e 400m rasos e Yohansson Nascimento (T46) que foi ouro nos 200m e prata nos 400m em Londres-2012. Não poderia deixar de citar o atleta do salto em altura Flávio Reitz. O referido atleta tem grandes chances de subir ao pódio, sendo que no último ano teve sua evolução física monitorada pelo Laboratório de Biomecânica da UFSC. No feminino os destaques são Teresinha Guilhermina (T1 ou T2) medalhista de ouro nas provas de 100 e 200m em Londres-2012 e Silvania Costa de Oliveira (T11), medalhista de ouro no salto em distância disputado em 2015 em Doha (Qatar). Agora é torcer pelos nossos atletas!

MSc. Mateus Rossato
Professor da FEFF/UFAM e doutorando no PPGEF do CDS/UFSC.



terça-feira, 23 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | GINÁSTICA RÍTMICA


Durante os três últimos dias de Olimpíadas são realizadas as provas da Ginástica Rítmica (GR). A modalidade, que foi inserida no programa olímpico em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (EUA), é uma das poucas modalidades que tem suas provas disputadas apenas por mulheres.
Fortemente influenciada pelo ballet clássico, a GR combina a execução de movimentos corporais como saltos, giros e equilíbrios, com o manejo de aparelhos, sempre acompanhado por estímulo musical. Uma destacada particularidade da GR é a grande amplitude nos movimentos realizados pelas atletas. A flexibilidade é uma capacidade física que proporciona graciosidade e maior dificuldade aos elementos corporais desta modalidade. Junto da flexibilidade, a força, a agilidade, o equilíbrio e a coordenação são capacidades imprescindíveis para se alcançar o ponto central da modalidade, que são movimentos rápidos e precisos.
Sem representantes em 2012, na edição Rio2016, o Brasil conseguiu classificação para as disputas individuais e de conjunto. A capixaba Natália Gaudio quebra o período de 24 anos sem representação brasileira nas provas individuais. No conjunto, as atletas Emanuelle Lima, Francielly Machado, Gabrielle Moraes, Jéssica Maier e Morgana Gmach buscam classificação para as finais. As grandes favoritas para a conquista de medalhas são as ginastas russas, tanto nas competições individuais, quanto no conjunto. Entretanto, outras nações do leste e sudeste europeu, como Bulgária, Bielorússia e Ucrânia, estão na disputa por um lugar no pódium. Nas disputas de conjunto, além dos países citados, Itália e Espanha também prometem deixar a competição acirrada.
Apesar do código de pontuação da modalidade exigir o conhecimento das bases biomecânicas dos movimentos, como planos e eixos, para avaliar os movimentos da modalidade, avaliações biomecânica tem se inserido aos poucos no esporte. Por ser uma modalidade que possui uma rotina de treinos bastante volumosa, a tendência está no entendimento das adaptações orgânicas geradas pelos treinamentos. Em competições podemos observar atletas sustentar posições com movimentos, de tronco ou membros, em angulações que excedem a normalidade e, ao mesmo tempo, acompanhamos tais atletas, que possuem com corpos magros, realizarem sucessivos saltos que exigem elevados nível de potência muscular. O que nos faz pensar em como se comportam as relações musculares de força X comprimento e força X velocidade nessas atletas.
Pesquisas tem sido desenvolvidas para entender a adaptação das ginastas em relação à arquitetura muscular, capacidade de produção de força e outros pontos relacionadas à neuromecânica muscular. Embora esses estudos requisitem sistemas avançados, outro ramo da biomecânica que vem sendo largamente utilizado na busca por mais precisão nos movimentos das atletas, a cinemetria. Embora de forma menos precisa, a evolução da tecnologia permite que hoje, utilizando smartphones e aplicativos específicos, treinadores e atletas consigam avaliar os movimentos realizados durante a rotina de treinamentos de forma quase instantânea, corrigindo eventuais erros. Dessa forma, embora tenhamos poucas pesquisas publicadas que envolvam a biomecânica e a GR, podemos perceber que os princípios a biomecânica tem contribuído pela evolução da modalidade.



Prof. Me. Anderson Simas Frutuoso
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

Membro do Grupo de Pesquisas em Biodinâmica – GPBIO (UFSC)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | MOUNTAIN-BIKE CROSS-COUNTRY




Nos Jogos Olímpicos deste ano o mountain-bike (MTB) acontece nos próximos dias. Desde 1996 como parte dos jogos, o MTB é um dos esportes que mais ganha praticantes no Brasil. Nos jogos Rio2016 teremos três representantes: Raiza Goulão, Henrique Avancini e Rubens Donizete (o mais experiente em jogos olímpicos, que disputa sua terceira olimpíada consecutiva). O que assistiremos nos dias 20 (feminino) e 21 (masculino) é o cross-country olímpico, ou XCO. No XCO os atletas correm em um circuito (o da Rio2016 tem cerca de 4,85 km) sendo que os homens completarão 7 voltas e as mulheres 6 voltas. Diferente do ciclismo de estrada, os atletas do MTB não tem socorro mecânico, e se acontecer algum imprevisto, precisam se virar para chegar até o ponto de apoio.

As provas MTB serão pesadas e exigirão muito dos atletas. O trajeto escolhido para a Rio2016 tem tudo de melhor que o XCO pode oferecer. Como o XCO não pode ter mais do que 15% do trajeto do circuito em terreno plano, teremos trechos de fortes subidas e fortes descidas. Isso promete muita velocidade nas descidas e exigirá a melhor técnica dos atletas. Nas subidas, será a capacidade de produzir potência um dos determinantes. No nível olímpico, todos os competidores usarão o que há de melhor em termos de equipamentos, mas será a capacidade de produzir força rapidamente para retomadas e subidas, aliado a técnica de saltos e ultrapassagem de obstáculos o que poderá determinar os vencedores e as vencedoras.

A biomecânica tem um papel fundamental nisso. Ciclistas MTB possuem diferenças nos padrões de aplicação de força no pedal e de cinemática dos membros inferiores quando comparados com outros ciclistas de estrada. A maior amplitude de movimento do tornozelo observada durante a pedalada de atletas MTB parece garantir uma aplicação de força por mais tempo durante o ciclo de pedalada. Além disso, o ciclista MTB usa mais a “puxada” do pedal em subidas, assim como para buscar saltar obstáculos e diminuir o impacto nos trechos em que há pedras. Tudo isso combinado com uma grande capacidade de produzir potência. Logo, muita força muscular é exigida, e não somente nos membros inferiores. Por isso que cada vez mais os ciclistas MTB incluem rotinas de treino de força em seus treinamentos.

Quem leva a medalha de ouro? No masculino é tentador dizer que o favorito é Nino Shurter, o Suíço que ganhou quase todos os campeonatos mundiais e copas do mundo da UCI nos últimos anos. Mas é a França o país com mais tradição no XCO nos jogos olímpicos, tendo levado medalhas em todas os jogos até agora. O principal francês no páreo é Julien Absalon, frequentemente chamado de “o melhor de todos os tempos” e atual líder do ranking da UCI. Eles já duelaram forte antes e talvez na Rio2016 a disputa entre ouro e prata fique entre eles. Mas não podemos deixar de mencionar que o campeão mundial de estrada Peter Sagan veio a Rio2016 para competir no XCO. O Eslovaco que começou no ciclismo como atleta de MTB com vários títulos é conhecido por sua força e impressionante capacidade de produção de potência. Embora eu goste do Sagan, acho que ele não vem em condições de levar medalha. Henrique Avancini que obteve a 22ª posição no mundial deste ano, a melhor da história do Brasil no masculino, e que compete em casa, vem se preparando muito seriamente para a prova. Eu vou apostar em Avancini brigando pelo top 10, e que sabe, uma medalha. Estarei na torcida por ele.

Entre as mulheres, a dinamarquesa Annika Langvad que levou o campeonato mundial desse ano e várias etapas da copa do mundo é franca favorita. Jolanda Neff, da Suíça, que levou as copas do mundo de 2014 e 2015 e também compete no ciclismo de estrada, está sendo bastante cotada para vencer. Na Rio2016 ela já competiu, foi a 8ª colocada na prova de ciclismo de estrada. Então, considerando a temporada atual, fica fácil apostar em uma das duas para o ouro. E quem sabe nossa bicampeã nacional e 10ª colocada no ranking mundial não faz uma prova sensacional e belisca o pódio?

Então vamos ficar ligados, pois às 12:30h no sábado e domingo tem MTB na Rio2016.

Prof. Dr. Felipe Carpes
Presidente da Sociedade Brasileira de Biomecânica
Grupo de Pesquisa em Neuromecânica Aplicada
Universidade Federal do Pampa

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | CICLISMO DE ESTRADA

Os jogos olímpicos iniciarem com uma bela cerimônia de abertura e seguem encantando o mundo com recordes olímpicos decorrente do desempenho de atletas altamente preparados. Para o Brasil, é uma oportunidade única de poder assistir a uma modalidade esportiva com o qual o Brasil possui pouca afinidade. Por mais incrível que pareça, o ciclismo é um esporte no qual o Brasil possui limitada expressão, para ser generoso. Na América Latina, certamente a Colômbia é o maior berço de atletas de elite no ciclismo.
É comum pensarmos nas provas de estrada do ciclismo, em função de competições tradicionais como o Tour de France. No entanto, o ciclismo olímpico possui quatro modalidades: estrada, pista, mountain bike e BMX. As provas de estrada são as mais tradicionais, enquanto o mountain bike foi introduzido nos jogos de Atlanta (1996) e o BMX está debutando no Rio. Cada modalidade possui uma série de provas com características distintas. No caso das provas de estrada, a etapa de resistência envolveu um percurso de 254,6 km no qual os ciclistas largam juntos e aquele que chegasse primeiro ganharia a medalha de ouro. Já a prova de contrarrelógio envolveu um percurso de quase 60 km no qual cada atleta realizou a largada isoladamente e levou o ouro o ciclista que percorreu o percurso no menor tempo. Desta forma, na prova de contrarrelógio o ciclismo não pode se beneficiar da “carona” oferecida pela pedalada no “pelotão”.
Tive a feliz oportunidade de assistir in loco a largada e a chegada da prova de resistência do ciclismo de estrada (fotos abaixo).

Largada da prova de resistência do ciclismo de estrada
Chegada da prova de resistência do ciclismo de estrada



Esta prova, assim como a prova de resistência do ciclismo feminino ficaram marcadas pelas quedas (literalmente!) de líderes, como Vicenzo Níbali (para os homens) e da ciclista Annemiek van Vleuten. Muito foi comentado sobre a periculosidade do percurso, o qual envolvia descidas sinuosas realizadas em alta velocidade. Com isto, era esperado que alguns atletas pudessem ter dificuldades nesta parte do percurso. Ambas as provas contaram com muita emoção até o final, principalmente na prova feminina quando a ciclista Fernanda Oliveira obteve a melhor marca brasileira na história das olimpíadas com o 7° lugar a 40s da vencedora. Certamente o Brasil sai dos jogos com um resultado excelente para o ciclismo, visto o baixo investimento realizado neste esporte.
         
           Falando um pouco de ciência, o ciclismo é um esporte que envolve a ação coordenada cíclica de múltiplos músculos dos membros inferiores afim de gerar propulsão, e dos membros superiores e do tronco gerando a estabilidade necessária para que o ciclista consiga permanecer em uma posição fletida sobre a bicicleta por seis horas ou mais. A relação entre a produção de força e o elevado número de repetições (maior do que 90 por minuto na maior parte da prova) implica em uma combinação ótima das propriedades força-comprimento-velocidade dos músculos esqueléticos. Cada vez mais, a ciência vem contribuindo para se atingir melhores índices nestas provas. Esta aplicação dos conhecimentos da fisiologia muscular tem sido cada vez mais utilizada nos programas de treinamento com o intuito de ofertar estímulos efetivos para que os ciclistas possam melhorar o seu desempenho. Há ainda muitos aspectos do gesto mecânico do ciclismo que são passíveis de discussão na literatura e entre os técnicos e atletas de ciclismo. Esperamos que o resultado da Fernanda Oliveira auxilie no incentivo a este esporte altamente técnico e complexo no Brasil.

Dr. Rodrigo Bini
Escola de Educação Física do Exército
Membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ciclismo

terça-feira, 16 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | JUDÔ

       O judô, traduzido como “caminho suave”, foi criado no Japão por Jigoro Kano em 1882. Nos Jogos Olímpicos foi introduzido em Tóquio 1964 e, desde então, só esteve ausente em uma edição dos Jogos Olímpicos realizado na Cidade do México 1968. As técnicas utilizadas na luta de judô são divididas em técnicas de projeção, as quais podem ser de perna (Ashi-waza), braço (Te-waza), quadril (Koshi-waza) e sacrifício (Sutemi-waza), técnicas de imobilização (Ossae-waza), chaves articulares (Kansetsu-waza) e estrangulamentos (Shime-waza). Fazem parte dos Jogos Olímpicos sete categorias divididas pela massa corporal dos atletas, sendo: -60 kg (ligeiro), 60-66 kg (meio-leve), 66-73 kg (leve), 73-81 (meio-médio), 81-90 (médio), 90-100 (meio-pesado) e +100 kg (pesado) para o masculino; -48 kg (ligeiro), 48-52 kg (meio-leve), 52-57 (leve), 57-63 (meio-médio), 63-70 (médio), 70-78 (meio-pesado) e +78 kg (pesado) para o feminino. Atualmente, a duração da luta é de 4 min para o feminino e 5 min para o masculino. Existem três pontuações que definem a luta, sendo elas: yuko (um terço de um ponto), wazari (meio ponto) e ippon (ponto completo).
        O judô brasileiro tem tradição nos Jogos Olímpicos, com resultados históricos expressivos, como a primeira medalha de ouro com Aurélio Miguel (Seul 1988) e a primeira medalha de ouro feminina com Sarah Menezes (Londres 2012). No total, o judô brasileiro já rendeu 19 medalhas olímpicas, antes do Rio 2016. Baseado nesse retrospecto, esperava-se que uma Olimpíada em casa supera-se Londres 2012, onde o judô conquistou 4 medalhas (1 de ouro e três de bronze). No entanto, o favoritismo não estava totalmente ao nosso lado, pois apenas 3 atletas estavam entre os cinco primeiros do ranking mundial, sendo elas Sarah Menezes (5º lugar), Érica Miranda (4º lugar) e Mayra Aguiar (4º lugar). Mas o esporte também tem surpresas e a melhor delas chama-se Rafaela Silva. Nossa “peso leve” era apenas a 11º do ranking e chegou no lugar mais alto do pódio. Já Mayra é considerada um ícone no judô brasileiro e, embora todos esperassem um confronto na final com a arquirrival americana Kayla Harrison, ela superou a queda na semifinal e mostrou o seu verdadeiro judô conquistando a medalha de bronze. O terceiro lugar de Rafael Silva, nosso peso pesado, não pode ser considerado uma surpresa, embora os resultados recentes, principalmente devido a lesões, o tenham colocado apenas na 12º posição antes dos Jogos. Ele superou mais uma vez a derrota para Teddy Riner na semifinal e conquistou sua segunda medalha de bronze em Jogos Olímpicos. 
O sucesso nos esportes de combate, em especial o judô, depende da execução de técnicas em elevada velocidade e com grande eficiência, na maioria das vezes com alta exigência de potência. Assim, a correta análise biomecânica da execução técnica pode permitir ao treinador intervir adequadamente no processo de correção de sua execução, contribuindo para a melhoria do desempenho de seus atletas. Por exemplo, a eficiência mecânica de uma técnica de projeção com o apoio do quadril (Koshi-waza) pode ser modificada dependendo da estatura do oponente, devido às mudanças nos braços de alavanca e, consequentemente, do torque final. Esse pode ser um aspecto a ser considerado no momento de analisar os adversários e propor estratégias de melhora técnica, principalmente em casos onde o nível competitivo é tão semelhante, como nos Jogos Olímpicos. Além disso, avaliações biomecânicas de força/potência podem possibilitar tanto o acompanhamento do nível de treinamento quanto à prescrição de cargas adequadas ao treino da capacidade neuromuscular envolvida.

Profa. Dra. Daniele Detanico
Universidade Federal de Santa Catarina
Membro do Laboratório de Biomecânica

Faixa preta de judô 1º Dan 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

BIOMECÂNICA NOS JOGOS OLÍMPICOS | LANÇAMENTO DO MARTELO

        O lançamento do martelo é considerado uma das provas mais difíceis do atletismo, pois a técnica de lançamento envolve série de ações complexas realizadas pelo lançador durante rotações sucessivas do corpo com o martelo em altas velocidades angulares. O martelo, de massa de 7,26 Kg no masculino e 4 Kg no feminino, é composto por uma esfera de metal chamada cabeça, presa por um cabo de aço de 1,2 m que termina em uma manopla, segurada pelas mãos do atleta para realizar o lançamento. Em geral, os atletas realizam 3 ou 4 giros antes do lançamento, dentro de uma área circular com 2,135 m de diâmetro, sendo necessário recuperar o equilíbrio dentro dessa área de lançamento após o lançamento.
        A prova faz parte do atletismo olímpico desde 1900 em Paris no masculino e desde 2000 no feminino. Os recordes mundiais são de 86,74 m no masculino e 81,08 m, obtidos pelo soviético Yuriy Sedykh em 1986 e pela polonesa Anita Wlodarczyk em 2015, respectivamente. Os recordes brasileiros pertencem a Wagner José Alberto Carvalho Domingos, com 78,63 m no masculino, e a Mariana Grasielly Marcelino com 64,90 m, ambos obtidos em 2016. Wagner Domingos estará entre os 33 atletas que conseguiram índice para a disputa Olímpica no Rio de Janeiro, ao lado do principal favorito Pawel Fajdek da Polônia, que detém 9 das 10 melhores marcas de 2016, além de outros fortes lançadores como Wojciech Nowicki da Polônia, Nick Miller do Reino Unido, Ivan Tsikhan da Bielorrússia, David Soderberg da Finlândia e Krisztián Pars da Hungria.
        A distância alcançada no lançamento depende de dois fatores: da resistência do ar, que pouco varia de lançamento para lançamento, e do vetor velocidade do centro de massa do martelo no instante da saída das mãos do lançador. Esse vetor pode ser decomposto em 3 variáveis de saída, portanto dependentes, que são: velocidade escalar, ângulo entre o vetor velocidade e a horizontal e altura. A figura mostra a trajetória do martelo durante os giros e as variáveis de saída:


 
Figura - Vista lateral da trajetória do martelo, com a representação das variáveis ângulo αo, velocidade vo e altura ho no instante de saída do martelo das mãos do lançador.
        As velocidades escalares alcançadas nos lançamentos de alto nível ultrapassam 30 m/s e deve ser a maior possível, sendo determinada pela capacidade do atleta em acelerar o martelo durante os giros. Pode-se imaginar que aumentando o número de giros é possível aumentar a velocidade de saída, contudo, atletas de alto nível que tentaram realizar 5 giros encontraram dificuldades em manter a precisão da direção do lançamento, já que a abertura da gaiola para a saída do martelo é pequena, bem como problemas em manter o equilíbrio do corpo e, com isso não apresentar aumento da velocidade da cabeça do martelo do 4o para o 5o giro.
        Já o ângulo e a altura de saída dependem da estatura do lançador e da trajetória da cabeça do martelo durante o último giro. O ângulo de saída ótimo é um pouco menor que 45o, dependendo da altura de saída. A estatura do lançador limita a capacidade de atingir esse ângulo, uma vez que o a cabeça do martelo pode tocar no solo antes da saída, como podemos ver pela figura. Assim, os lançadores de alto nível são atletas altos, fortes e com grande massa corporal, e devem ter coordenação apurada para desenvolverem os giros e realizarem grandes lançamentos.

        Realizar análises cinemáticas do lançamento do martelo a partir de vídeos é uma maneira de gerar informações importantes para planejamento do treinamento e desenvolvimento da técnica do lançador, e tem sido feita por todo o mundo, a partir de conceitos e metodologias fornecidos pela biomecânica.

Prof. Luciano Allegretti Mercadante
Laboratório de Biomecânica e Instrumentação – LABIN
Faculdade de Ciências Aplicadas – FCA – UNICAMP Limeira